sábado, 24 de dezembro de 2011

Histerias de final de ano

Fim de ano é aquela coisa complicada! Lojas cheias, trânsito, pessoas alucinadas com compras e  listas de presentes intermináveis.
E o pessoal tirando a gentileza, a caridade e o amor pelo outro do fundo do armário. Agir com indiferença ao espírito natalino é quase um crime inafiançável. 

Confesso que cedo a alguns caprichos, natalinos principalmente, mas a maioria é inegociável. Acredito que Papai do Céu nos dotou da capacidade denominada pensamento crítico, usemo-lo, ora pois! Negar um convite para visitar aquele parente que você não tem afinidade nenhuma, ou não querer ligar para aquela pessoa que você não suporta, só porque é natal, não é de mau tom, é apenas um direito legítimo!

O bom é que com o passar da idade as decisões de fim de ano já não são mais impostas a nós; é possível barganhar e  recusar um monte de roubada! Evitar algumas chateações é o ponto chave para não transformar seu fim de ano em assunto de consulta com o analista:

REGRA Nº 1: Se você for um sujeito anti-social, que não suporta ter de fazer média com aquele primo chato que gosta de se exibir, ou que detesta fazer gracinha para os bebês da família, eis o que eu digo: Fuja! Do quê? você deve estar se perguntando... de qualquer evento social familiar: ceia natalina, amigo secreto, almoço pós natal, pós Réveillon. Nossa, como as famílias inventam pretextos para se reunir no final de ano...

REGRA Nº 2: Não deixe as compras de natal para última hora. Sim, é sempre necessário comprar um presentinho aqui ou outro ali para pais, irmãos, sobrinhos e amigos. A troca de presentes é geralmente muito agradável. Muito bom ver no rosto do presenteado a satisfação de receber algo original, ou mesmo exatamente o que ele (a) pediu. Agora esse ritual de passagem, de ano, pode ser uma verdadeira tortura chinesa se for feita às pressas e sem planejamento. Nada mais desagradável do que disputar aos tapas, socos e cotoveladas as vitrines de loja, a atenção dos atendentes ou mesmo os produtos à venda. Parece careta, mas é bastante eficiente: faça uma listinha; não de presentes e, sim, de pessoas que valham a pena ser presentadas. Comece logo na primeira folguinha que tiver e priorize em ordem de encontro: quem você for encontrando primeiro já vai presenteando. Simples, não é? Afinal, ninguém reúne todos os amigos e familiares na noite de natal. Por quê não antecipar a entrega do presente?

REGRA Nº 3: Evite a muvuca! avenidas principais, shopping certers e prefeituras são verdadeiros chamarizes de pessoas. Todos se aglomeram para ver enfeites de natal, tirar fotos com papai noel ou comprar aquela lembrancinha para presentear aquele parente de loooooonge que a gente só vê nessas ocasiões.

REGRA Nº 4: Não ligue a televisão! Incrível como no único período do ano, em que a classe proletária está em casa, a programação televisiva se farta de reprises e especiais de fim de ano que nada têm de especial. Venhamos e convenhamos, é esperado ver Renato Aragão, Xuxa e a sua santidade nos eventos de final de ano. A menos que você queira ver a milionésima reprise do filme da vida de Jesus, desligue a televisão e leia um livro.

REGRA Nº 5: Respire fundo e tenha sempre em mãos um bom jogo de videogame ou uma temporada de seriado pra passar o tempo. Não se desespere, são apenas duas noites no ano! Se não puder evitar o convívio com a massa ignara, relaxe! Pense na experiência como laboratório: sorrie para todos, dance com aquela tia assanhada e distribue simpatia.

Por mais que você tente, sempre haverá aquela vizinha que insiste em aumentar o som do CD da Simone ou abrasileira o natal do jeito mais canhestro possível: ouvindo funk no último volume. Fazer o  quê? Viver em sociedade tem dessas coisas. Há sempre a bebidinha que deixa tudo mais colorido ou o remedinho que te faz acordar no outro dia em que tudo volta ao normal...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ode à mentira

 

 - Fala inglês? pergunta o entrevistador.
  - Fluentemente, inclusive fiz intercâmbio aos 18 anos. Responde o candidato.
  - Muito bem, e tem domínio de informática?
  - Sim, entendo de pacote office e configurações.
  - Está contratado. Arremata o entrevistador satisfeito.

 Um diálogo como esse, tão prosaico e cotidiano, pode ilustrar bem a capacidade do ser humano de mentir a fim de conseguir algum benefício em troca. Desde os tempos bíblicos quando os apóstolos renegaram Jesus, o recurso da mentira é largamente utilizado para dois fins em sua maioria: tirar proveito de alguma situação ou se safar de uma. É inerente ao ser humano contar uma ou outra inverdade e, ao menos que prejudique o outro, ninguém considera a mentira um pecado. Digo mais, a maioria a usa como ferramenta de sobrevivência!

E quando a mentira é contada a nós mesmos? Sim, sem tirar, aparentemente, qualquer proveito da situação, nos submetemos a um jogo de representações que mascaram a verdade e abrem margem para a mentira.Vejamos alguns dos exemplos mais clássicos:

ANO QUE VEM VOU PERDER PESO: procrastinar uma dieta ou a matrícula na academia é de longe uma das falácias mais utilizadas por nós mesmos no final de ano. Eu mesmo prometi emagrecer cinco quilos. Devo ter engordado pelo menos dois...

JÁ SUPEREI...: Quem nunca levou uma chute na região glútea e teve de repetir esse mantra várias vezes? Se a palavra tem poder, ela poderia materializar um bloqueio na nossa memória a fim de permitir que nos esqueçamos dessas situações indesejadas.

VOU ORGANIZAR GERAL O MEU QUARTO: O sonho do quarto organizado, onde todos os livros vivem harmoniosamente por ordem de assunto, não passa de uma quimera. Nem que você seja mantido em regime de cativeiro no seu quarto, o comichão da arrumação vai te afetar.

PODERIA TER FEITO ISSO SE EU QUISESSE!: Aliada às máximas: Poderia ter escolhido tal profissão se eu quisesse; levava jeito pra isso; porque se eu tivesse a oportunidade, rapaz! não teria pra ninguém. Arranjar desculpas para nossas frustrações é um bom artifício para não encarar a realidade. Muitas vezes funciona, até a gente ver aqueles exemplos de superação na televisão ou na internet: - Contrariando todas as possibilidades, cega, surda e muda ministra palestras pelo mundo. Ai você pára e pensa:  - Poxa vida, se ela conseguiu, por que eu não? Aí é o momento de abraçarmos o abismo.

MAS ISSO EU FAÇO EM MEIA HORINHA: Trabalhos de faculdade se enquadram nesse dito. O que era pra durar 30, dura 1 hora, às vezes 1 semana! Subestimar a dificuldade das tarefas ainda é um mal para o qual não há medicamento disponível.

EU FARIA ISSO MELHOR!: Esse pensamento simplista advém de um sentimento pra lá de mesquinho: a inveja! Quem nunca menosprezou o trabalho do colega, pois achava que não merecia tamanho destaque? Quem nunca se remoeu por não ter tido a ideia e a iniciativa? 

ESTÁ TUDO SOBRE CONTROLE: Utilizado em todas as circunstâncias. Quem nunca se viu em uma situação onde a entrega era tamanha, que não restava outra alternativa, senão, confiar? Um relacionamento, um emprego, um vício. Admitir que não se tem controle das coisas é dar um passo pra neurose. Nesse caso, minta pra si mesmo, mas não exagere na dose.

NÃO TENHO NADA CONTRA FULANO(A): Você sente calafrios quando cruza com a pessoa, mas por uma razão que é anterior a sua existência é incapaz de dizer que não a suporta? Isso acontece bastante em família. Porque dá sempre pra evitar aquela pessoa pentelha, mas um parente não. Inevitavelmente, vocês vão se cruzar. Batismos, velórios e confraternizações de final de ano te aguardam! Portanto, coloque a máscara e sorria.

MAS EU NÃO SOU ASSIM: Alguns defeitos são inegociáveis. Confirmar um ou outro é aceitável, mas assumir que seu temperamento é meio explosivo, não oferecer aquele ombro amigo de madrugada e, declarar que emprestar dinheiro não é uma forma de amizade, está fora de cogitação! Aí sempre tem um indivíduo que aponta o dedo pra você e despeja umas boas verdades. Em legítima defesa você solta: Mas eu não sou assim! Pronto, a sua honra está limpa, porém sua consciência está mais suja que poleiro de pato. 

Deixar de mentir para si mesmo é impossível. É preciso, vez ou outra, lançar mão de uma mentirinha, de uma inverdade, ou de uma boa lorota, para não nos culparmos tanto. O ser humano é o único ser vivo capaz de sofrer por escolhas mal feitas. Somos dotados de uma coisa chamada consciência que não nos permite ignorar alguns fatos que preferiríamos deixar na clandestinidade da memória. Saber lidar com eles, entretanto, é tarefa que poucos sabem conduzir sem o artifício da mentira. Afinal ela não é de todo nociva, talvez em seu interior haja uma verdade encoberta pelo véu da insegurança, porém saber tirá-lo aos poucos requer paciência e habilidade de mestre.

sábado, 19 de novembro de 2011

Mentira


Piscar dos olhos, boca seca, sudorese, gagueira. Esses são apenas alguns sinais que as pessoas apresentam quando contam uma grande mentira. Entretanto, a maior parte da população mente assintomaticamente. Na cultura brasileira, convencionou-se que algumas mentiras são verdadeiros atos de gentileza e não se pode dizer, por exemplo, que a noiva está feia, que a mulher está gorda ou que o homem é impotente. Há sempre formas de mascarar a verdade e fazer valer o eufemismo. Dizer que você não conta nenhuma das mentiras abaixo é uma grande falácia que, ao descoberta, pode gerar harakiri social:

1 - "Passa lá em casa": essa mentira é soberana e deve figurar no rol do repertório de mentiras de todas as pessoas. É a forma mais simpática e, íntima, de encerrar uma conversa. Esperar que o interlocutor pague a visita é algo fora de cogitação.

2 - "Só mais cinco minutinhos": o mais engraçado dessa mentira é que ela não precisa de ninguém mais do que você e o seu sono para que ela seja contada. Os cinco minutinhos na verdade podem se estender por horas, se assim a função soneca do seu celular for programada.

3 - "Ahhh, mas fica pra cortar o bolo": sim, é uma mentira ingênua e nem deveria constar aqui, mas ninguém realmente liga que um ou outro convidado saia da festa antes que o parabéns seja cantado. Essa mentira é geralmente contada pela mãe do aniversariante que, por sinal, é o último a se importar.

4 - "Já, já ele(a) chega: é uma das mais emblemáticas. Qual unidade de tempo determina o já já? Quanto tempo dura cada já? Jamais saberemos, mas com certeza continuaremos a usar essa mentira pra falar que aquele(a) retardatário(a) ainda vai demorar muito.

5 - "Nada melhor que a comida da minha mãe": Isso nem chega a ser mentira, é uma CALÚNIAAAA! A não ser que sua mãe seja a Palmirinha (honestamente, nem ela está com o moral tão alta assim), ela é a melhor cozinheira do mundo. Falam isso geralmente os homens que serviram quartel e as pessoas que não tem dinheiro pra comer em restaurantes bacanas.

6 - "Estou entrando só pra ver os e-mails": CASCATA!!!! Os e-mails são apenas o pretexto utilizado para todo mundo entrar no Facebook, Twitter e naquele site pornô básico.

7 - "Estou pegando seu celular só para ver as fotos": FUJA!!! Mentira mundialmente utilizada por namorados que estão ávidos para checar o histórico de ligações.

8 - "Seu bebê é lindo": CALE-SE!!!! Algumas crianças são realmente muito bonitas, mas generalizar que todas são protagonistas de comercial da Hipoglós é um pouco forçação de barra.

9 - "Gosto de ler e ir ao teatro": MENTIRA!!! É sabido que metade dos perfis das redes sociais é recheado de caôs. Dizer que gosta de teatro e ir ao teatro são coisas bem diferentes. Leitura então, só se incluir posts do Face ou timeline do Twitter.

10 - "Só tenho olhos pra você, meu amor": AHH,VÁ! Vire as costas pra reparar como os olhos dele (a) não só olham para os olhos dos outros bem como para os lábios, a bunda...
Escrevo neste blog porque quero treinar minha habilidade de redação e não faço a mínima questão que os outros leiam. Não me preocupo com erros de digitação, nem com os temas escolhidos. E sobre hipótese alguma escrevo para atacar alguém. Isso tudo é verdade, só que ao contrário.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Expectativa



Expectativa é algo levado muito a sério na nossa sociedade. A começar pela expectativa de vida, aquele índice que fica na barra lateral da Wikipédia sempre quando vamos pesquisar sobre um país. Esse índice mostra a longevidade do povo de um país mediante a vários critérios. Levando para a parte prática, a expectativa também é um indicador social, só que ao contrário da vital, ela fica na barra lateral do nosso (in)consciente e nos permite fazer previsões reais ou completamente alucinantes. Final do ano é tempo pra fazer a listinha. Examinar direitinho o ano vigente e incluir uma boa dose de coisas que queiramos que aconteça no ano seguinte. Nem sempre é algo material, obviamente que carro novo, casa nova e viagens são sempre bem-vindos, mas esses itens nem sempre figuram nas primeiras posições. Aquela dose extra de paciência, a disposição matinal e o bom humor nas situações difíceis são recorrentes nas listas de todos os anos. O que a gente não se dá conta é que a expectativa é desenvolvida a partir das nossas atitudes diárias. É muito fácil saber o que esperar de uma pessoa irritadiça e ansiosa, bem como de uma pessoa calma e paciente. Não vamos confundir expectativa com milagre, de forma alguma! Levemos em conta que as expectativas são norteadas pelo acaso, então não nos desesperemos.  Aquela viagem, aquele carro novo, aquele amor, podem ser adiados ou convertidos para outras coisas. Se realmente soubéssemos o que é melhor para nós, não precisaríamos fazer promessas, consultar cartomantes ou enviar flores pra Iemanjá. Teríamos o destino traçado e muito bem avisado, não à revelia da sorte, ou do azar. Enquanto isso, fiquemos sempre a espreita, a mercê do que o acaso anunciar.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Contrato social amoroso

Em filmes e livros, o amor é tido como o único capaz de mudar a vida dos protagonistas. É a força motriz que comanda o universo. Através dele, as guerras acabariam, a fome cessaria e a paz reinaria soberana. Mas como toda instuitição, o amor precisa ser respaldado por uma série de regras que se assemelham às cláusulas de um contrato.

Não sou só eu que digo não! José de Alencar escreveu bem lá pelo século XIX, em seu best-seller intitulado "Senhora", que o amor tratava-se de uma transação comercial entre duas partes: no caso a heroi Fernando Sanchez e a heroina (feminino de heroi, não a droga) Aurélia Camargo. Só que ao contrário do livro, que retrata as mazelas da sociedade pequeno-burguesa,  as cláusulas amorosas são bem aceitas e devem ser cumpridas para o bom andamento do relacionamento. Eis algumas delas:

CLÁUSULA 1: É indispensável que o homem, ou quem estiver encarregado deste papel na relação, ligue no dia seguinte. Aliás, essa história de ligar no dia seguinte é uma grande furada. O ideal é que um SMS seja enviado para saber se a pessoa, ao menos, chegou em casa viva. A desobediência dessa cláusula pode gerar a recisão do contrato.

CLÁUSULA 2: Faz-se essencial que ambos notem o que há de diferente na roupa, cabelo ou perfume do outro. É extremamente desagradável ficar horas no cabeleireiro, ou passar horas escolhendo roupa, para não ter nenhum feedback. Reação que, por sinal, deve ser positiva. Não há nada de gosto mais duvidoso do que a célebre frase "Quem desdenha quer comprar". Criticar ou ignorar a pessoa que se produziu com esmero para te ver além de "Deselegante" (ANNENBERG, 2011), é motivo de infração grave.

CLÁUSULA 3: Pouco discutida, mas todos sabem do que estou falando. O olhômetro. A não ser que você tenha sérios problemas de concentração, é de profundo mau gosto ficar olhando para as outras pessoas ao invés de olhar pra sua própria companhia. Fazer comentários então, é inadmissível. Caso não consiga deixar de notar aquele(a) gatinho(a) que está passando bem atrás da sua companhia, tente fazê-lo o mais discretamente possível. E, o mais óbvio, continue prestando atenção no seu parceiro(a). O descumprimento desta cláusula pode gerar uma longa DR e um gasto incalculável com mimos para reparar o erro.

CLÁUSULA 4: Esta aqui é bem perigosa, pois é uma prática que invariavelmente acontece, inclusive a pedido do outro: Falar sobre ex. No fim das contas, as pessoas querem saber onde elas estão se metendo - sem trocadilhos por favor! Para tal, elas fazem perguntas a fim de investigar o passado do outro e evitar/prever possíveis ciladas. CUIDADO, comentar um ou outro aspecto do namoro anterior pode parecer inevitável, mas JAMAIS, comente detalhes de fórum ou, como um amigo gosta de dizer "furo", íntimo ao outro. Além de ser grosseiro, tal tipo de conversa pode levar a comparações e constrangimento. Como notar que você está falando demais? Simples, preste atenção nos sinais: se a pessoa simplesmente parar de falar e seu semblante mudar, CALE A BOCA! Também observe se o outro pede maiores informações -  a curiosidade mórbida também é sinal de mudança de assunto urgente.

CLÁUSULA 5: Prometeu, cumpriu! Essa é de longe a mais temida e a que as pessoas mais erram. Perdoem-me os esquecidos e equívocados, mas MEMÓRIA É FUNDAMENTAL! Se no passado remoto você disse que iria ligar, ligue! Se ao passar em uma loja disse que iria comprar aquele objeto da vitrine, compre! Se disse que iria tentar aquela posição sexual complicada que vai travar sua coluna, tente! As consequências do descumprimento dessa cláusula são catastróficas: birra, agressividade, indiferença, até choro...

A não ser que você more em um casta indiana, ninguém vai te buscar em casa e te forçar a namorar ou casar com alguém. Saliento que as regras do contrato social amoroso não existem em papel, mas são convencionadas por uma sociedade que por muito tempo comeu o pão que o diabo amassou para lidar com problemas conjugais.

Claro que cada contrato pode sofrer acréscimo ou subtração de algumas cláusulas, mas ai vai o poder de barganhar, estudar e decidir as concessões que podem ser feitas e as infrações permitidas. Obedecer ao contrato fielmente pode parecer cansativo e difícil, mas é como aquele velho ditado: "Só o amor compõe". Compõe renda, pagamento de contas, hipoteca de casa ... Por isso preste bem atenção ao assinar um contrato social amoroso, pois uma vez que as páginas são rubricadas no rodapé do cotidiano, não há do que reclamar.

sábado, 22 de outubro de 2011

A arte da procrastinação


        Chamem do que quiser "brainstorm"; "ócio criativo"; "bloqueio de criatividade", mas bem sabemos que quando nos deparamos com um trabalho árduo e complicado a escolha é unânime: adiá-lo! Às vezes, a dificuldade nem é o fator desencadeante da procrastinação, ao contrário, pode ser o excesso de facilidade e confiança que depositamos na nossa capacidade, que nos torna adeptos dessa prática milenar. Deus criou o mundo em seis dias e, no sétimo, Ele descansou. Se fosse criado por um reles mortal, a criação demoraria pelo menos sete dias para ser sancionada no Congresso. Exemplos de procrastinação chovem aos cântaros - estádios de futebol, hospitais, estações de trem - sim, na minha cidade uma estação está em "reforma" há pelo menos 1 ano e,  pouco que se notou de diferença, exceto pela escada improvisada que deu lugar à escada rolante e pelo contingente que se aglomera para subir e descer os incômodos degraus.
        Procrastinar uma atitude não é de todo mal, uma vez que nos faz refletir sobre o que nos move a tomá-la. Entretanto, sejamos francos, poucas pessoas procrastinam ações para pensar acerca delas. O que a maioria, inclusive o que vos fala, faz é deixar o problema no cantinho da sala da zona de conforto, com a esperança de que algo ou alguém irá empurrá-lo embaixo do tapete. Temos que ter em mente, é claro, que nem todo problema tem solução instântanea e nem todos somos capazes de tomar decisões rapidamente.  Além do mais, procrastinar não é tarefa fácil como se imagina; atrelada à escolha de adiar uma atividade, vem a angústia! Sim, a mesma que nos impede de dormir e que nos faz martelar a mesma coisa até tomarmos uma providência. Não seria mais fácil fazer algo imediatamente? Nem sempre, penso que a ocasião faz o ladrão - li em uma pesquisa que tomamos melhores decisões quando estamos com a bexiga cheia. Em outras palavras, quando estamos sob pressão. Então relaxe: pense, pese e pause; e, enquanto isso, beba bastante água.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dormir de conchinha

Em conversa com amigos recentemente, ouvi de um deles o quão fazia falta dormir sozinho neste tempo frio. Lembrei que embora eu tenha namorado várias vezes, dormi junto com a pessoa em poucas as ocasiões e, salvo algumas exceções, não vejo nada de extraordinário em dormir junto.
Sou do tipo egoísta, quando estou com sono não ajo com muito carinho e viro pro lado e durmo mesmo. Acho engraçado ouvir das pessoas que elas precisam de cobertor de orelha, dormir de conchinha  e todas essas outras expressões análogas ao ato de dormir junto que existem. Creio que muita gente confunde dormir de conchinha com o sexo matinal, ou o sexo pré-conchinha. Esses sim são bons e extremamente válidos. Agora dizer que dormir com alguém agarrado pela cintura é confortável, é um pouco de exagero. Sou bem carente e, mesmo assim, a ideia de dormir com uma pessoa agarrada pelo pescoço me sufoca um pouco. Acredito que espaço entre duas pessoas é importante em todas as situações. Conversar com alguém a menos de um palmo do nariz é algo que gera um pouco de aflição, o mesmo acontece quando alguém quer contar um segredo bem ao pé do ouvido. Até consigo imaginar o arrepio... Se ficar colado um ao outro fosse essencial, não haveria tantas cirurgias de separação de gêmeos siameses. Todos precisam de espaço, que pode ser virtual, mas que eventualmente acaba na cama.

Closing time

Confesso que nunca fui fã de domingo. Sempre achei um dia triste e sombrio. Este último ultrapassou todos os limites. Nenhum raio de sol adentrou a janela desta pessoa que vos escreve. Mas pior que domingo é ficar em casa no domingo. O fim de semana meio que impõe a ditadura da sociabilização. Ficar em casa por pura opção tornou-se uma pecha muito pesada para quem é caseiro. Resolvi ir ao cinema, assisti ao Amizade Colorida com o Justin Timberlake e a Mila Kunis. Não sou o maior defensor das comédias românticas e suas fórmulas pra lá de batidas, mas dei meu braço a torcer. Filme leve, despretensioso, embora a lista de famosos seja extensa. Bom filme para aquele dominguinho com gosto de chuchu. Engraçado é que depois de um bom filme, saímos com a sensação de mudar algo nas nossas vidas. Aí vem o problema, domingo tudo fecha mais cedo - o shopping está baixando as portas quando eu passo. Poucas pessoas caminham, apressadas, por causa da chuva, e para não perderem seus ônibus. Chegar em casa é a maior preocupação de todo mundo. A ditadura do domingo não é fácil. Ela te deixa preocupado com aquele trabalho da faculdade pra entregar segunda de manhã e que você nem começou. Te lembra que sua conta vence e que você não recebeu o boleto devido à greve dos Correios. Lembra ainda que a segunda-feira brava te espera e que o despertador é implacável - a função soneca vai apitar continuamente para que você não esqueça que é hora de acordar. Queria passar em uma lojinha legal para comprar mais um filme em DVD que não vou assistir, ou experimentar alguma camiseta. Mas não dá. É domingo à noite, e está tudo fechado. Melhor deixar-se render. Segunda-feira chega com ares de antipatia, sabe aquela pessoa mal vista que chega na festa e torce o nariz pra todo mundo, pois pode tudo? É assim que as coisas são, a gente até pode disfarçar ouvindo músicas, cantando, batendo papo na internet. Não adianta, a manhã chegará a cavalo e o azedume será inevitável.

domingo, 16 de outubro de 2011

Negativo por contato


            Por muito tempo relutei antes de criar um blog. Difícil ter coragem de escrever algo e deixar visível, ou a mercê do acaso, quando praticamente tudo que há interessante já foi, aparentemente, escrito. A começar pelo título: "Sincericida". Apareceu que já era um domínio gravado, cuja patente houvera sido registrada e não havia nada que eu pudesse fazer a respeito. Como gosto muito do nome e sou um sincericida por natureza, resolvi deixar acrescentando apenas um hífen. Ficou assim "Sin-cericida". Não que faça o menor sentido, pois "sin" embora seja prefixo em alguma língua, nada afeta o cericida. Mas enfim, de acordo com a premissa jornalística o primeiro parágrafo é a grande chance que o autor tem de fisgar o leitor, então prefiro pensar que ainda posso salvar o meu texto. Por falar em jornalismo, esse foi meu grande sonho juvenil. Não, eu não queria ser correspondente internacional ou dividir bancada com nenhuma ex-modelo que há tivesse pousado nua. Queria ficar na redação. Tive a oportunidade de visitar apenas duas redações, modestas, na época da faculdade, mas aquilo mesmo empoeirado, caótico, barulhento, parecia um sonho para mim! Fiz testes, entrevistas, milhares de currículos enviei, mas nunca obtive êxito. Minto. Obtive êxito sim, mas na época, já havia largado o curso.
           Ihh, lá vai mais um amargurado escrever coisas na internet. Não! Não tenho perfil e nem quero divulgar nada para ninguém. Mas como está em voga a exposição gratuita, acho válido contar um pouco a minha história, ou pelo menos a parte dela que eu quero revelar. Revelar, por sinal, era um verbo muito usado na aula de Fotografia. Tinha uma professora do Pará que tinha um sotaque muito peculiar, ela puxava o s no final das palavras e eu achava isso fascinante, só depois iria descobrir que meu ramo seria outro. Devaneios à parte, lembro que precisava chegar pelo menos duas horas antes das aulas começarem para usar o laboratório de revelação. Não que houvesse muitos alunos na minha sala, mas o laboratório era usado por alunos de outros cursos. Entrar naquele lugar escuro era um misto de medo e excitação, onde um passo em falso poderia levar tudo a perder. A comparação com dark room agora parece inevitável, mas sinto desanimá-los, nunca ouvi registros de algo que fugisse do ordinário. Não posso contar detalhes dos procedimentos, pois não os lembro. Algumas bacias com líquidos diferentes eram dispostas em cima de um grande balcão. A analogia agora pode ser feita com restaurantes self-service, pois todos nós mexiamos nas bacias usando pinças. Só que ao contrário do self-service, isso não era feito por pura higiene - o contato com o ácido causava coceira e irritação na pele.
Esta imagem que encabeça o texto, foi feita a partir de um procedimento chamado "Negativo por Contato". Usei bolinhas de gude, uns bibelôs que minha mãe mantinha em um vaso de plantas artificiais e alguns feijões. Gostei muito do resultado e lembro que na ocasião do aniversário de uma amiga, resolvi dar meu único indício de que poderia ser um artista a ela. Na época, ela não entendeu muito bem a proposta daquilo, mas foi delicada o suficiente para aceitar o presente e pendurá-lo em um porta retrato em sua escrivaninha. Tempos passaram, perdi um pouco o contato com ela, mas para minha surpresa ela publicou essa imagem em um site de relacionamentos com os seguintes dizeres: "Encontrei isso em um dos arquivos do meu computador, mas o original está guardado em casa; um dia valerá milhões".
Um gesto delicado, inocente que inflou meu ego. Não liguei que a foto tenha recebido poucos comentários. Muita gente pode não ter entendido o que era aquilo, ou a história que se escondia por trás. Revelar quem somos é um preço alto demais. Prefiro ser um negativo por contato - escolher o que quero exibir, passar o revelador nas áreas demarcadas e ficar somente à luz fraquinha e assertiva do laboratório do consciente.