sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ode à mentira

 

 - Fala inglês? pergunta o entrevistador.
  - Fluentemente, inclusive fiz intercâmbio aos 18 anos. Responde o candidato.
  - Muito bem, e tem domínio de informática?
  - Sim, entendo de pacote office e configurações.
  - Está contratado. Arremata o entrevistador satisfeito.

 Um diálogo como esse, tão prosaico e cotidiano, pode ilustrar bem a capacidade do ser humano de mentir a fim de conseguir algum benefício em troca. Desde os tempos bíblicos quando os apóstolos renegaram Jesus, o recurso da mentira é largamente utilizado para dois fins em sua maioria: tirar proveito de alguma situação ou se safar de uma. É inerente ao ser humano contar uma ou outra inverdade e, ao menos que prejudique o outro, ninguém considera a mentira um pecado. Digo mais, a maioria a usa como ferramenta de sobrevivência!

E quando a mentira é contada a nós mesmos? Sim, sem tirar, aparentemente, qualquer proveito da situação, nos submetemos a um jogo de representações que mascaram a verdade e abrem margem para a mentira.Vejamos alguns dos exemplos mais clássicos:

ANO QUE VEM VOU PERDER PESO: procrastinar uma dieta ou a matrícula na academia é de longe uma das falácias mais utilizadas por nós mesmos no final de ano. Eu mesmo prometi emagrecer cinco quilos. Devo ter engordado pelo menos dois...

JÁ SUPEREI...: Quem nunca levou uma chute na região glútea e teve de repetir esse mantra várias vezes? Se a palavra tem poder, ela poderia materializar um bloqueio na nossa memória a fim de permitir que nos esqueçamos dessas situações indesejadas.

VOU ORGANIZAR GERAL O MEU QUARTO: O sonho do quarto organizado, onde todos os livros vivem harmoniosamente por ordem de assunto, não passa de uma quimera. Nem que você seja mantido em regime de cativeiro no seu quarto, o comichão da arrumação vai te afetar.

PODERIA TER FEITO ISSO SE EU QUISESSE!: Aliada às máximas: Poderia ter escolhido tal profissão se eu quisesse; levava jeito pra isso; porque se eu tivesse a oportunidade, rapaz! não teria pra ninguém. Arranjar desculpas para nossas frustrações é um bom artifício para não encarar a realidade. Muitas vezes funciona, até a gente ver aqueles exemplos de superação na televisão ou na internet: - Contrariando todas as possibilidades, cega, surda e muda ministra palestras pelo mundo. Ai você pára e pensa:  - Poxa vida, se ela conseguiu, por que eu não? Aí é o momento de abraçarmos o abismo.

MAS ISSO EU FAÇO EM MEIA HORINHA: Trabalhos de faculdade se enquadram nesse dito. O que era pra durar 30, dura 1 hora, às vezes 1 semana! Subestimar a dificuldade das tarefas ainda é um mal para o qual não há medicamento disponível.

EU FARIA ISSO MELHOR!: Esse pensamento simplista advém de um sentimento pra lá de mesquinho: a inveja! Quem nunca menosprezou o trabalho do colega, pois achava que não merecia tamanho destaque? Quem nunca se remoeu por não ter tido a ideia e a iniciativa? 

ESTÁ TUDO SOBRE CONTROLE: Utilizado em todas as circunstâncias. Quem nunca se viu em uma situação onde a entrega era tamanha, que não restava outra alternativa, senão, confiar? Um relacionamento, um emprego, um vício. Admitir que não se tem controle das coisas é dar um passo pra neurose. Nesse caso, minta pra si mesmo, mas não exagere na dose.

NÃO TENHO NADA CONTRA FULANO(A): Você sente calafrios quando cruza com a pessoa, mas por uma razão que é anterior a sua existência é incapaz de dizer que não a suporta? Isso acontece bastante em família. Porque dá sempre pra evitar aquela pessoa pentelha, mas um parente não. Inevitavelmente, vocês vão se cruzar. Batismos, velórios e confraternizações de final de ano te aguardam! Portanto, coloque a máscara e sorria.

MAS EU NÃO SOU ASSIM: Alguns defeitos são inegociáveis. Confirmar um ou outro é aceitável, mas assumir que seu temperamento é meio explosivo, não oferecer aquele ombro amigo de madrugada e, declarar que emprestar dinheiro não é uma forma de amizade, está fora de cogitação! Aí sempre tem um indivíduo que aponta o dedo pra você e despeja umas boas verdades. Em legítima defesa você solta: Mas eu não sou assim! Pronto, a sua honra está limpa, porém sua consciência está mais suja que poleiro de pato. 

Deixar de mentir para si mesmo é impossível. É preciso, vez ou outra, lançar mão de uma mentirinha, de uma inverdade, ou de uma boa lorota, para não nos culparmos tanto. O ser humano é o único ser vivo capaz de sofrer por escolhas mal feitas. Somos dotados de uma coisa chamada consciência que não nos permite ignorar alguns fatos que preferiríamos deixar na clandestinidade da memória. Saber lidar com eles, entretanto, é tarefa que poucos sabem conduzir sem o artifício da mentira. Afinal ela não é de todo nociva, talvez em seu interior haja uma verdade encoberta pelo véu da insegurança, porém saber tirá-lo aos poucos requer paciência e habilidade de mestre.

Um comentário:

  1. Juro que ri sozinho ao ler este post... :D Principalmente na parte da cega, surda e muda que ministra palestras ao redor do mundo. rs

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