sábado, 22 de outubro de 2011

A arte da procrastinação


        Chamem do que quiser "brainstorm"; "ócio criativo"; "bloqueio de criatividade", mas bem sabemos que quando nos deparamos com um trabalho árduo e complicado a escolha é unânime: adiá-lo! Às vezes, a dificuldade nem é o fator desencadeante da procrastinação, ao contrário, pode ser o excesso de facilidade e confiança que depositamos na nossa capacidade, que nos torna adeptos dessa prática milenar. Deus criou o mundo em seis dias e, no sétimo, Ele descansou. Se fosse criado por um reles mortal, a criação demoraria pelo menos sete dias para ser sancionada no Congresso. Exemplos de procrastinação chovem aos cântaros - estádios de futebol, hospitais, estações de trem - sim, na minha cidade uma estação está em "reforma" há pelo menos 1 ano e,  pouco que se notou de diferença, exceto pela escada improvisada que deu lugar à escada rolante e pelo contingente que se aglomera para subir e descer os incômodos degraus.
        Procrastinar uma atitude não é de todo mal, uma vez que nos faz refletir sobre o que nos move a tomá-la. Entretanto, sejamos francos, poucas pessoas procrastinam ações para pensar acerca delas. O que a maioria, inclusive o que vos fala, faz é deixar o problema no cantinho da sala da zona de conforto, com a esperança de que algo ou alguém irá empurrá-lo embaixo do tapete. Temos que ter em mente, é claro, que nem todo problema tem solução instântanea e nem todos somos capazes de tomar decisões rapidamente.  Além do mais, procrastinar não é tarefa fácil como se imagina; atrelada à escolha de adiar uma atividade, vem a angústia! Sim, a mesma que nos impede de dormir e que nos faz martelar a mesma coisa até tomarmos uma providência. Não seria mais fácil fazer algo imediatamente? Nem sempre, penso que a ocasião faz o ladrão - li em uma pesquisa que tomamos melhores decisões quando estamos com a bexiga cheia. Em outras palavras, quando estamos sob pressão. Então relaxe: pense, pese e pause; e, enquanto isso, beba bastante água.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dormir de conchinha

Em conversa com amigos recentemente, ouvi de um deles o quão fazia falta dormir sozinho neste tempo frio. Lembrei que embora eu tenha namorado várias vezes, dormi junto com a pessoa em poucas as ocasiões e, salvo algumas exceções, não vejo nada de extraordinário em dormir junto.
Sou do tipo egoísta, quando estou com sono não ajo com muito carinho e viro pro lado e durmo mesmo. Acho engraçado ouvir das pessoas que elas precisam de cobertor de orelha, dormir de conchinha  e todas essas outras expressões análogas ao ato de dormir junto que existem. Creio que muita gente confunde dormir de conchinha com o sexo matinal, ou o sexo pré-conchinha. Esses sim são bons e extremamente válidos. Agora dizer que dormir com alguém agarrado pela cintura é confortável, é um pouco de exagero. Sou bem carente e, mesmo assim, a ideia de dormir com uma pessoa agarrada pelo pescoço me sufoca um pouco. Acredito que espaço entre duas pessoas é importante em todas as situações. Conversar com alguém a menos de um palmo do nariz é algo que gera um pouco de aflição, o mesmo acontece quando alguém quer contar um segredo bem ao pé do ouvido. Até consigo imaginar o arrepio... Se ficar colado um ao outro fosse essencial, não haveria tantas cirurgias de separação de gêmeos siameses. Todos precisam de espaço, que pode ser virtual, mas que eventualmente acaba na cama.

Closing time

Confesso que nunca fui fã de domingo. Sempre achei um dia triste e sombrio. Este último ultrapassou todos os limites. Nenhum raio de sol adentrou a janela desta pessoa que vos escreve. Mas pior que domingo é ficar em casa no domingo. O fim de semana meio que impõe a ditadura da sociabilização. Ficar em casa por pura opção tornou-se uma pecha muito pesada para quem é caseiro. Resolvi ir ao cinema, assisti ao Amizade Colorida com o Justin Timberlake e a Mila Kunis. Não sou o maior defensor das comédias românticas e suas fórmulas pra lá de batidas, mas dei meu braço a torcer. Filme leve, despretensioso, embora a lista de famosos seja extensa. Bom filme para aquele dominguinho com gosto de chuchu. Engraçado é que depois de um bom filme, saímos com a sensação de mudar algo nas nossas vidas. Aí vem o problema, domingo tudo fecha mais cedo - o shopping está baixando as portas quando eu passo. Poucas pessoas caminham, apressadas, por causa da chuva, e para não perderem seus ônibus. Chegar em casa é a maior preocupação de todo mundo. A ditadura do domingo não é fácil. Ela te deixa preocupado com aquele trabalho da faculdade pra entregar segunda de manhã e que você nem começou. Te lembra que sua conta vence e que você não recebeu o boleto devido à greve dos Correios. Lembra ainda que a segunda-feira brava te espera e que o despertador é implacável - a função soneca vai apitar continuamente para que você não esqueça que é hora de acordar. Queria passar em uma lojinha legal para comprar mais um filme em DVD que não vou assistir, ou experimentar alguma camiseta. Mas não dá. É domingo à noite, e está tudo fechado. Melhor deixar-se render. Segunda-feira chega com ares de antipatia, sabe aquela pessoa mal vista que chega na festa e torce o nariz pra todo mundo, pois pode tudo? É assim que as coisas são, a gente até pode disfarçar ouvindo músicas, cantando, batendo papo na internet. Não adianta, a manhã chegará a cavalo e o azedume será inevitável.

domingo, 16 de outubro de 2011

Negativo por contato


            Por muito tempo relutei antes de criar um blog. Difícil ter coragem de escrever algo e deixar visível, ou a mercê do acaso, quando praticamente tudo que há interessante já foi, aparentemente, escrito. A começar pelo título: "Sincericida". Apareceu que já era um domínio gravado, cuja patente houvera sido registrada e não havia nada que eu pudesse fazer a respeito. Como gosto muito do nome e sou um sincericida por natureza, resolvi deixar acrescentando apenas um hífen. Ficou assim "Sin-cericida". Não que faça o menor sentido, pois "sin" embora seja prefixo em alguma língua, nada afeta o cericida. Mas enfim, de acordo com a premissa jornalística o primeiro parágrafo é a grande chance que o autor tem de fisgar o leitor, então prefiro pensar que ainda posso salvar o meu texto. Por falar em jornalismo, esse foi meu grande sonho juvenil. Não, eu não queria ser correspondente internacional ou dividir bancada com nenhuma ex-modelo que há tivesse pousado nua. Queria ficar na redação. Tive a oportunidade de visitar apenas duas redações, modestas, na época da faculdade, mas aquilo mesmo empoeirado, caótico, barulhento, parecia um sonho para mim! Fiz testes, entrevistas, milhares de currículos enviei, mas nunca obtive êxito. Minto. Obtive êxito sim, mas na época, já havia largado o curso.
           Ihh, lá vai mais um amargurado escrever coisas na internet. Não! Não tenho perfil e nem quero divulgar nada para ninguém. Mas como está em voga a exposição gratuita, acho válido contar um pouco a minha história, ou pelo menos a parte dela que eu quero revelar. Revelar, por sinal, era um verbo muito usado na aula de Fotografia. Tinha uma professora do Pará que tinha um sotaque muito peculiar, ela puxava o s no final das palavras e eu achava isso fascinante, só depois iria descobrir que meu ramo seria outro. Devaneios à parte, lembro que precisava chegar pelo menos duas horas antes das aulas começarem para usar o laboratório de revelação. Não que houvesse muitos alunos na minha sala, mas o laboratório era usado por alunos de outros cursos. Entrar naquele lugar escuro era um misto de medo e excitação, onde um passo em falso poderia levar tudo a perder. A comparação com dark room agora parece inevitável, mas sinto desanimá-los, nunca ouvi registros de algo que fugisse do ordinário. Não posso contar detalhes dos procedimentos, pois não os lembro. Algumas bacias com líquidos diferentes eram dispostas em cima de um grande balcão. A analogia agora pode ser feita com restaurantes self-service, pois todos nós mexiamos nas bacias usando pinças. Só que ao contrário do self-service, isso não era feito por pura higiene - o contato com o ácido causava coceira e irritação na pele.
Esta imagem que encabeça o texto, foi feita a partir de um procedimento chamado "Negativo por Contato". Usei bolinhas de gude, uns bibelôs que minha mãe mantinha em um vaso de plantas artificiais e alguns feijões. Gostei muito do resultado e lembro que na ocasião do aniversário de uma amiga, resolvi dar meu único indício de que poderia ser um artista a ela. Na época, ela não entendeu muito bem a proposta daquilo, mas foi delicada o suficiente para aceitar o presente e pendurá-lo em um porta retrato em sua escrivaninha. Tempos passaram, perdi um pouco o contato com ela, mas para minha surpresa ela publicou essa imagem em um site de relacionamentos com os seguintes dizeres: "Encontrei isso em um dos arquivos do meu computador, mas o original está guardado em casa; um dia valerá milhões".
Um gesto delicado, inocente que inflou meu ego. Não liguei que a foto tenha recebido poucos comentários. Muita gente pode não ter entendido o que era aquilo, ou a história que se escondia por trás. Revelar quem somos é um preço alto demais. Prefiro ser um negativo por contato - escolher o que quero exibir, passar o revelador nas áreas demarcadas e ficar somente à luz fraquinha e assertiva do laboratório do consciente.