Por muito tempo relutei antes de criar um blog. Difícil ter coragem de escrever algo e deixar visível, ou a mercê do acaso, quando praticamente tudo que há interessante já foi, aparentemente, escrito. A começar pelo título: "Sincericida". Apareceu que já era um domínio gravado, cuja patente houvera sido registrada e não havia nada que eu pudesse fazer a respeito. Como gosto muito do nome e sou um sincericida por natureza, resolvi deixar acrescentando apenas um hífen. Ficou assim "Sin-cericida". Não que faça o menor sentido, pois "sin" embora seja prefixo em alguma língua, nada afeta o cericida. Mas enfim, de acordo com a premissa jornalística o primeiro parágrafo é a grande chance que o autor tem de fisgar o leitor, então prefiro pensar que ainda posso salvar o meu texto. Por falar em jornalismo, esse foi meu grande sonho juvenil. Não, eu não queria ser correspondente internacional ou dividir bancada com nenhuma ex-modelo que há tivesse pousado nua. Queria ficar na redação. Tive a oportunidade de visitar apenas duas redações, modestas, na época da faculdade, mas aquilo mesmo empoeirado, caótico, barulhento, parecia um sonho para mim! Fiz testes, entrevistas, milhares de currículos enviei, mas nunca obtive êxito. Minto. Obtive êxito sim, mas na época, já havia largado o curso.
Ihh, lá vai mais um amargurado escrever coisas na internet. Não! Não tenho perfil e nem quero divulgar nada para ninguém. Mas como está em voga a exposição gratuita, acho válido contar um pouco a minha história, ou pelo menos a parte dela que eu quero revelar. Revelar, por sinal, era um verbo muito usado na aula de Fotografia. Tinha uma professora do Pará que tinha um sotaque muito peculiar, ela puxava o s no final das palavras e eu achava isso fascinante, só depois iria descobrir que meu ramo seria outro. Devaneios à parte, lembro que precisava chegar pelo menos duas horas antes das aulas começarem para usar o laboratório de revelação. Não que houvesse muitos alunos na minha sala, mas o laboratório era usado por alunos de outros cursos. Entrar naquele lugar escuro era um misto de medo e excitação, onde um passo em falso poderia levar tudo a perder. A comparação com dark room agora parece inevitável, mas sinto desanimá-los, nunca ouvi registros de algo que fugisse do ordinário. Não posso contar detalhes dos procedimentos, pois não os lembro. Algumas bacias com líquidos diferentes eram dispostas em cima de um grande balcão. A analogia agora pode ser feita com restaurantes self-service, pois todos nós mexiamos nas bacias usando pinças. Só que ao contrário do self-service, isso não era feito por pura higiene - o contato com o ácido causava coceira e irritação na pele.
Esta imagem que encabeça o texto, foi feita a partir de um procedimento chamado "Negativo por Contato". Usei bolinhas de gude, uns bibelôs que minha mãe mantinha em um vaso de plantas artificiais e alguns feijões. Gostei muito do resultado e lembro que na ocasião do aniversário de uma amiga, resolvi dar meu único indício de que poderia ser um artista a ela. Na época, ela não entendeu muito bem a proposta daquilo, mas foi delicada o suficiente para aceitar o presente e pendurá-lo em um porta retrato em sua escrivaninha. Tempos passaram, perdi um pouco o contato com ela, mas para minha surpresa ela publicou essa imagem em um site de relacionamentos com os seguintes dizeres: "Encontrei isso em um dos arquivos do meu computador, mas o original está guardado em casa; um dia valerá milhões".
Um gesto delicado, inocente que inflou meu ego. Não liguei que a foto tenha recebido poucos comentários. Muita gente pode não ter entendido o que era aquilo, ou a história que se escondia por trás. Revelar quem somos é um preço alto demais. Prefiro ser um negativo por contato - escolher o que quero exibir, passar o revelador nas áreas demarcadas e ficar somente à luz fraquinha e assertiva do laboratório do consciente.
Esta imagem que encabeça o texto, foi feita a partir de um procedimento chamado "Negativo por Contato". Usei bolinhas de gude, uns bibelôs que minha mãe mantinha em um vaso de plantas artificiais e alguns feijões. Gostei muito do resultado e lembro que na ocasião do aniversário de uma amiga, resolvi dar meu único indício de que poderia ser um artista a ela. Na época, ela não entendeu muito bem a proposta daquilo, mas foi delicada o suficiente para aceitar o presente e pendurá-lo em um porta retrato em sua escrivaninha. Tempos passaram, perdi um pouco o contato com ela, mas para minha surpresa ela publicou essa imagem em um site de relacionamentos com os seguintes dizeres: "Encontrei isso em um dos arquivos do meu computador, mas o original está guardado em casa; um dia valerá milhões".
Um gesto delicado, inocente que inflou meu ego. Não liguei que a foto tenha recebido poucos comentários. Muita gente pode não ter entendido o que era aquilo, ou a história que se escondia por trás. Revelar quem somos é um preço alto demais. Prefiro ser um negativo por contato - escolher o que quero exibir, passar o revelador nas áreas demarcadas e ficar somente à luz fraquinha e assertiva do laboratório do consciente.

Adorei o blog! ;)
ResponderExcluirObrigado, volte sempre :)
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