segunda-feira, 4 de novembro de 2013

(des)encontros


  Na seção de DVD's:  - Te achei muito bonito, sabia?
 - Obrigado - respondi meio encabulado. Já estávamos trocando olhares há alguns minutos até que a declaração fosse feita.
  - Escuta, eu preciso ir agora. Mas você quer uma carona? Mora aqui perto?
                                                                 * * *
 No carro: - Comprei esse DVD pra um amigo que é fã de Lost - disse já entrando no carro e ligando o motor. 
  - Pode parar aqui - disse eu, alguns minutos depois. Não era muito perto de casa, mas não achei prudente parar bem em frente. Futuramente, eu receberia carona até à porta, só que naquela hora não teria como prever.
                                                                 * * *
 Mais tarde, naquele mesmo dia: - Só liguei porque estava com muita ansiedade - disse a voz do outro lado da linha. Eu não conseguia acreditar naquilo. Um encontro fortuito no shopping iria marcar uma época toda da minha vida? Não? Sim? Sim!
                                                                 * * *
  Quarta-feira de cinzas: - Escuta, eu preciso de um pouco de tempo pra pensar. Colocar as ideias no lugar, sabe? - disse a voz embargada na mesa do shopping. Eu sabia que o tempo era indeterminado, e que as coisas jamais seriam como antes. Mas peraê, houve tempo para o antes?
                                                                  * * *
  Alguns meses depois: - Bela jaqueta - provoquei eu, numa mensagem de texto.  - Ah, peguei emprestado, tava frio e eu não tinha prestado atenção no tempo. Mas por que você me viu e não foi me cumprimentar?
                                                                  * * *
 Numa noite cálida:- Você sabe que isso não é certo, né? Você tá namorando! - Na hora eu hesitei, mas não havia como evitar. Foi um beijo apenas e ao parar o carro pra eu descer, já em frente de casa eu disse:  - Adivinha quando é meu aniversário? Se você adivinhar da primeira vez é um sinal de que a gente ainda vai ficar juntos. - 25 de março? - meu coração palpitou.
                                                               
                                                                  * * *
Na escola,  pego de surpresa, num dia de semana:  - Você não adivinha quem está estudando aqui?!  - disse a amiga querendo causar.  - É, eu já sei - respondi entediado.  - Vi o nome no sistema hoje de manhã. Só espero que não caia na minha sala.
                                                                  * * *
No final do curso intensivo:  - Juro que não tivemos nada. Ele está mentindo, aquele gordo filho da puta. Vou tirar essa história a limpo agora. - falou com cólera na voz dirigindo a caminho do parque. Não sabia se fora vítima de fofoca, ou se estava apenas escondendo algo.
                                                                  * * *
Em janeiro, próximo ao seu aniversário:  - Ah, é claro que você vai, né? - disse com voz toda animada do outro lado da linha. Eu disse que ia pensar, então não perdeu tempo:  - Vamos vai? Em nome dos velhos tempos. - acabei não indo, me faltou vontade, ou seria coragem?
                                                                  * * *

 Via mensagem, no terminal- Seu namorado é de poucos amigos, né? - eu provoquei. A risada ilustrada com os kkk denotava constrangimento. Sim, eu havia feito o flagra  e, não, não fora apresentado ao atual. Por um lado me sentia bem, fora sido trocado por um cara mais velho, mais feio e, aparentemente, sem grande simpatia. Por outro pensei:  - Como será que eu sou visto?
                                                                 * * *
  Domingo à noite:  - Olá. - Sem sono? - eu respondi. Achei que tivesse acontecido algo: - Não, só queria conversar...
                                                                                                               continua...

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A-mor(te)?

                                         



        Você pode dizer o que quiser:  - Foi melhor assim; tava na cara que não ia dar certo; vai aparecer alguém melhor; antes só do que mal acompanhado(a), etc... Não importa a fonte do consolo: amigos, colegas de trabalho, familiares - são todos unânimes ao manifestar que o término de um relacionamento é algo positivo, quando, sabemos, não é.
        O próximo passo é da sua escolha, não há cartilha a ser seguida. Há aqueles que seguem à risca as fases do luto: negação, raiva, depressão, barganha e aceitação: - Não, a gente só deu um tempo, assim que as ideias arejarem a gente volta.  - Que ódio daquele(a) infeliz! - Por quê eu? O que eu fiz de errado? - E se eu chegasse de surpresa na casa dele(a) com um rolo de carta escrito mil eu te amos em 56 línguas? - Se ainda sofro por ele(a)? Jamais! Superei!
         Há aqueles que não têm paciência e recorrem a um recurso infalível: o chocolate. Produto largamente utilizado para a cura, ou suavização, da famigerada TPM, também serve de poderoso aliado aos que sofrem por amor. Embora seja paliativo e a sensação de culpa, por devorar uma barra de "Kit Kat" em segundos, seja, praticamente, instantânea, o chocolate é um amigo que não te julga, e não faz questionamentos sobre suas escolhas.
        Passada a confirmação do fim, vem a melhor - e mais perigosa - parte: a abstração. Cada um faz o que dá na veneta: há os que enfiam o pé na jaca, chapam o coco e caem na balada, fazendo a linha "rede de arrasto" e pegando geral, como se não houvesse amanhã, nem a ameaça da tia Sida. Há aqueles que fazem a linha psicótico-maníaco-depressivo e lançam mão do bom e velho network e resolvem dar uma chance para aquele(a) que vinha dando bola desde o natal de 97. E há sempre aquela pessoa que resolve reunir a galera e faz o peregrino no muro das lamentações - ai aguenta! Não demonstrar solidariedade pelo pé-na-bunda alheio é infração gravíssima, sem direito à condicional. 
         Se a relação é longa, não se iluda; há sempre contas a serem acertadas a posteriori. Tenho um amigo que é obrigado a conviver com um ex por causa de um bendito cãozinho que compraram juntos. Como o animalzinho é igualmente afeiçoado aos dois donos, ele é obrigado a aturar as visitas do ex com frequência e se desvencilhar da vontade de fazer um revival.
         Caso a decisão seja tomada em comum acordo - coisa que raramente aconteceu comigo - fica aquela velha promessa de ficarem amigos. - Não, a gente sempre teve tanta afinidade, né? Não podemos deixar isso acabar - diz um ao outro. De tão encardida, essa promessa amarela como o sorriso de quem a fez. Salvo raras exceções, não conheço casal que ficou amigo após um término. Se a relação era tão saudável, por que raios se separaram, não é verdade?
        Verdade seja dita, não importa se você faz o estilo recalcado(a) ou conformado(a), se você é do tipo que se arrepende de terminar minutos após a decisão, ou se sua madrinha fez macumba para o seu namoro michado acabar. Todo mundo sofre, cada um à sua maneira e a seu tempo, com o término de um namoro.
       Lugares em comum, hábitos adquiridos, manias execradas de um e do outro, tudo isso faz falta e ajuda a gente a ter aquela sensação de missão cumprida. Não importa se não houve o "felizes para sempre", o que vale é ajudar a escrever um capítulo na vida do outro.