Não assisti ao "Clube de Compras Dallas" quando saiu em cartaz. Entretanto, o texto não se trata de um comentário ridiculamente atrasado sobre o filme.
2014 foi um ano muito difícil pra mim. Problemas de saúde, amorosos, adaptação no trabalho... Achei que seria um pouco demais acompanhar a saga de um cowboy soropositivo em busca da sobrevivência.
Aliado a esse panorama bastante animador, tinha acabado de conhecer um rapaz que, inicialmente um flerte, acabou virando um amigo; espécie de confidente. Ele é soropositivo. Vou chamá-lo aqui de W.
Ele, sim, estava ansioso para ver o filme. Soropositivo há bastante tempo, lida com o diagnóstico de forma invejável: não se queixa, não tem autopiedade, nem aquela "positividade" que algumas pessoas portadoras dessa doença ostentam.
Voltando ao filme, apesar do burburinho que recebeu após inúmeras indicações e prêmios, pude constatar que a obra é um simples trabalho de amor. Uma ode ao ser humano - com seus defeitos e limitações. Defeitos também presentes nos inúmeros anacronismos e erros de apuração do roteiro.
O personagem principal, defendido pelo ex-canastrão Matthew McConaughey, é um eletricista viciado em rodeios que está na vida a passeio. Sem família, ou vínculos, ele passa o dia vendo cowboys montar touros, enquanto bebe, usa cocaína e transa nos estábulos desprotegidamente.
Detalhes do enredo são desnecessários. Não cabe a mim julgar se o filme mereceu todos os prêmios, ou se faz justiça à causa. O que mais me impressionou foi outra coisa: como a doença ressignificou a vida dos personagens.
O eletricista homofóbico que se torna ativista. A médica certinha que vira transgressora e acoberta esquemas de contrabando. O transexual que abre mão de sua identidade para buscar o perdão do pai. Personagens mais ou menos desenvolvidos, cujos destinos são revelados em ordem de importância na trama.
Infelizmente, por ordem do acaso, perdi contato com o W. Mas em nossa curta convivência sei das mudanças que esse CID acarretaram em sua vida. Quando perguntei-lhe o que o motivava diariamente ele dizia com simplicidade: "não quero que meu sobrinho ache que eu sou um perdedor..."
Você não é W, você não é....

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